<$BlogRSDUrl$>

 

TABAGISTA ANÔNIMO

 

O MINISTÉRIO DA SAÚDE ADVERTE:

As opiniões sobre métodos de parar de fumar aqui apresentadas não seguem critérios científicos ou estatísticos, e podem não fazer sentido para outros indivíduos.

O autor deste site não tem nenhum vínculo com o grupo Tabagistas Anônimos.

 

::F.A.Q. do T.A.::
::Dicas do T.A.::
 
Blogueiros Contra o Tabagismo

Selo do BCT, fundo preto

Selo do BCT, fundo branco

 
links sobre tabagismo
:: e-mail-me ::
 
Rede Tabaco Zero
 
This page is powered by Blogger. Isn't yours?
 

 

-26 de dezembro de 2006 -

Não-fumante ativa

Têm rolado altos debates nos blogs becetistas sobre se o movimento fumantista passivo tem exagerado ou não na defesa de suas causas.

Não tenho nada muito útil a acrescentar, a não ser uma historinha que lembrei ao ler um desses posts, e ia deixá-la na respectiva caixa de comentários. Mas como ela vai consumir um certo espaço, uso-a para tirar as teias de aranha aqui da casa. E também porque me falta inspiração para adicionar pelo menos mais um post ao T.A. neste ano de baixíssima produtividade.

Aconteceu há umas duas décadas. Eu tinha vinte e poucos anos, era solteiro, morava com meus pais, e fui convocado para ajudar um amigo idem, que estava com uma dificuldade muito comum a sujeitos nessas condições (solteiro, vinte e poucos anos, morando com os pais).

Depois de prolongada fase de vacas magras, ele finalmente havia conhecido uma menina, e o fim-de-semana prometia a tão esperada oportunidade de saciar algumas das fomes básicas que costumam acometer meninos solteiros de vinte e poucos anos, se é que vocês me entendem. Meu amigo tinha planejado uma noitada romântica na sua casa, aproveitando a feliz coincidência da ausência dos pais em viagem. Por motivos óbvios, o evento não me incluía, eu que era o seu principal parceiro de noitadas na época.

Por conta disso, as perspectivas para o meu fim-de-semana eram das mais soníferas, pois, ao mesmo tempo que não tivera a mesma sorte que ele no fim-de-semana anterior, quando ele conheceu a tal menina numa danceteria, que era como costumávamos chamar os clubes noturnos na década de 80, também não tinha nenhuma outra companhia para dar meus "rolês" - outra típica expressão da década - na noite paulistana em busca de sabemos-o-quê.

Já me conformando em passar a noite de sábado em casa, compartilhando uma pizza com meus pais e depois fazendo qualquer coisa que não fosse assistir com eles o filme da Globo - o que poderia ser estudar bateria, instrumento que eu começava a aprender na época, ou ouvir um pouco de música no meu aparelho três-em-um (pra quem não sabe: toca-discos, toca-fitas e rádio), ou entregar-me a longas elucubrações escritas e desenhadas num diário que eu mantinha na época, quando não existia blogs, todas essas atividades acompanhadas de cigarros Free - eis que o telefone toca.

Era o amigo, e a dificuldade para qual a solução ele contava com minha colaboração consistia no seguinte. A menina hospedava em sua casa uma prima muito querida do interior, que não podia de jeito nenhum deixar sozinha. Minha missão seria evitar que a prima se transformasse numa segura-vela, como nossos pais descreveriam a situação, ou numa empata-foda, que era a expressão mais corrente na nossa geração. O que para ele era um problema, para mim era uma oportunidade rara de chegar aos fins sem o habitual desgaste inerente aos meios, isto é, eu teria uma chance de fazer sexo sem ter de perambular e gastar meu salário de estagiário pela já repetitiva noite paulistana e, o que era melhor, pulando a sempre complicada e freqüentemente mal sucedida etapa da abordagem inicial.

Nessa idade, apesar das diversas evidências em contrário, algo inconsciente nos faz crer que a prima de uma determinada menina só pode ser tão linda quanto a própria menina. E a menina em questão era um chuchuzinho (essa expressão não é da época; foi influência das últimas eleições presidenciais, que incorporei no meu vocabulário pela sua multifuncionalidade), fui o primeiro a reparar isso na danceteria. Inclusive eu, em geral mais tímido que o amigo, tinha sido, excepcionalmente, o primeiro a tomar a iniciativa da abordagem, talvez pelos dotes da menina justificarem maiores riscos, ou por conta de uma dose maior de "coragem" consumida naquela noite. Mas ela preferiu meu amigo, fazer o quê (teria sido o fato de eu feder a cigarro com caipirinha?).

A prima, embora reforçasse as evidências citadas acima, tinha lá seus encantos, o principal deles era que eu não tinha nada a perder, outro era um sorriso sutil porém persistente toda vez que dirigia a palavra a mim. A noite se desenvolvia bem até o final da refeição, elas satisfeitas com as habilidades culinárias do anfitrião e com minha capacidade de dizer coisas engraçadas, ambas as satisfações desproporcionais aos nossos respectivos talentos. Até o momento em que acendi um cigarro, o primeiro da noite. A prima começou a revirar sua bolsa, enqüanto seu sorriso aos poucos se tornava menos sutil. Imaginei que ela teria ficado aliviada por constatar que havia outro fumante no recinto, e que afinal saborearia o cigarro custosamente evitado até então, por não saber se seria mal recebido. Esse é um momento mágico de identificação que costuma acontecer entre fumantes, quando num grupo de pessoas pouco conhecidas, o viciado se rende, manda às favas os escrúpulos e acende um cigarro  numa tragada profunda, sem se importar se vai incomodar os demais, desencadeando um efeito dominó, que faz todos os fumantes do recinto o imitarem quase imediatamente, trocando olhares de cumplicidade e destacando-se do restante das pessoas que não compreende as dores e delícias do tabagismo .

Mas o que saiu da bolsa foi um papelzinho amarrotado, que ela me entregou. Por um momento, acreditei que o conteúdo do bilhete só poderia ser alguma forma de assédio mais ou menos explícito, do tipo "vamos logo fazer o que viemos fazer aqui", a julgar pela amplitude do sorriso da prima enqüanto me estendia o braço, àquela altura já escancarado. Era uma cópia xerox de um texto escrito à mão por algum gênio literário não revelado, que por suas evidentes virtudes humorísticas deve ter sido motivo de muitas gargalhadas em rodas de bar e se alastrou como um spam na cidade do interior onde ela morava, numa época em que spam nem existia. Infelizmente não mantive o papel, portanto vou privá-los do teor exato da singela notinha e de toda a brilhante espirituosidade, a fina ironia contida nas entrelinhas, mas ela dizia mais ou menos isso:

Prezado(a) amigo(a)
Você gosta de fumar. O resíduo do seu prazer é a fumaça.
Eu gosto de beber cerveja. O resíduo do meu prazer é o xixi.
Você não gostaria que eu despejasse o resíduo de meu prazer em você, isto é, você com certeza não quer que eu faça xixi em você.
Sendo assim, você também não deve despejar nos outros o resíduo do seu prazer. Portanto, NÃO FUME PERTO DE MIM!

Foi com evidente decepção que vi minhas expectativas de mágica identificação e assédio mais ou menos explícito se desmaterializarem num instante, enqüanto nuvens negras estacionavam pesadas sobre a mesa de jantar. O amarelo da nicotina nos meus dentes somou-se ao negro da atmosfera, de forma que o sorriso que eu dei deve ter ficado algo como verde-musgo.

Meu amigo, temendo que o clima pusesse a perder todos os seus luxuriosos planos para o resto da noite, apressou-se em declarar que também odiava cigarro. Mentira, pois, embora não pudesse ser classificado como fumante, ele costumava filar meus cigarros e confiscar meu isqueiro nas danceterias, especialmente quando a menina-alvo da vez estava precisando de fogo, aquele necessário para acender um cigarro, bem entendido, o que não diminuía sua disposição para prover outros eventuais calores que ela desejasse.

Chuchuzinho limitou-se a um breve olhar de censura para a prima, e um de desculpas para mim, deixando claro que sua intenção em dar seqüência à programação do evento não fora abalada pelo incidente. Tanto que logo levantou-se, pedindo ao meu amigo para ouvir o "Passo do Lui", primeiro disco do Paralamas do Sucesso, então recém-lançado, e se retiraram ao quarto dele, onde ficava o três-em-um.

Agora, relembrando o acontecido, pensei numa resposta excelente que eu poderia ter dado. Diria à prima que eu não me importaria se ela despejasse sobre mim os resíduos de qualquer prazer que fosse, desde que isso proporcionasse prazer a ela, pois eu estava lá justamente para levá-la ao deleite, e que o prazer dela seria o meu prazer. É uma pena que esta presença de espírito não me acometeu na ocasião, pois isso apressaria o desfecho do nosso encontro. Talvez ela se levantasse indignada da cadeira e exigisse ser levada imediatamente para casa, o que teria sido melhor que o silêncio de velório que imperou quando ficamos a sós na sala. Ou quem sabe a provocação não tivesse despertado a fera oculta dentro da pacata moça do interior, e ela partisse para os finalmente com um apetite inédito.

Mas, no melhor estilo bom-mocinho que costumava cultivar à época, e que - agora vejo - foi responsável por uma parte considerável dos fracassos nas danceterias, limitei-me a dizer que se o cigarro incomodava era só pedir, que eu o apagaria. "Apagar" aqui é um eufemismo, pois a ação requerida para interromper a vida de um cigarro recém-acendido melhor se descreve como execução por esmagamento. E foi a essa tarefa que me dediquei minuciosamente durante os longos e silenciosos minutos subseqüentes. Não foi fácil, o cigarro resistiu como pôde, e quando pensei que estava tudo acabado ele ainda agonizava, soltando um fio de sua fumacinha indesejada. Só depois de uma segunda sessão de esmagamento seguida de esquartejamento, com requintes de crueldade, é que ele afinal feneceu.

Uma vez que a possibilidade de um final feliz para a noitada se revelava bastante remota diante do surrealismo da situação - um fumante assumido tentando levar para cama não uma mera fumante passiva revoltada, mas uma anti-fumante ativa, militante, xiita (não me ocorre melhor definição para uma pessoa que carrega na bolsa uma bomba caso precise perpetrar um ato terrrorista como aquele) - não protestei quando a prima alegou que no dia seguinte teria de acordar cedo, e me ofereci a levá-la para casa. Enquanto ela recolhia o bilhete de volta para a sua bolsa, não sei se com a intenção de usá-lo novamente ou se simplesmente para eliminar as provas da ocorrência, notei que o sorriso dela estava mais apagado que o cigarro esmagado no cinzeiro. E nesse momento senti uma certa compaixão pela prima.

De tudo o que conversamos no carro, lembro apenas da frase que ela disse antes de sair: "E pare de fumar, viu?" Mal virei a esquina, e um Free já se encontrava aceso e altivo no canto da minha boca. Os resíduos do meu prazer escapavam pela janela do Chevette, e sumiam no céu amarelado pelas luzes de vapor de sódio das ruas da Vila Mariana.

Tabac - 16:53

9 Comentários:

Anonymous Maira disse...

se for para contar histórias como essa, é melhor você continuar fumando!!!

26/12/06 17:21  

Anonymous Claudio disse...

Tabac, meu amigo, temos a mesma idade, moramos na mesma cidade e você não faz idéia como me identifiquei com tudo neste seu post. Com excessão da prima é claro. Também vivia nas danceterias atrás das minas, hehehe. Grande abraço.

26/12/06 18:04  

Anonymous Tabac disse...

Cláudio, se você tem a mesma idade, mora em Sampa e costumava freqüentar danceterias nos anos 80, pode ser que você tenha papado a prima! Sem dúvida não a compartilhamos, porque, como contei, comigo não rolou...
Abraço.

27/12/06 11:45  

Anonymous Claudio disse...

Tabac, apesar de frequentar sim as danceterias, nunca fui tão bom assim com as minas, e neste caso em específico, não iria rolar, pois também fumava bastante na época. Forte abraço.

28/12/06 10:28  

Anonymous Freja disse...

Tabac, Muito bom o seu post, adorei a historinha e me identifiquei com os termos e com as situações a partir da perspectiva feminina (não com a prima, pois eu também era fumante na época e jamais me ocorreria andar com um bilhetinho desse na bolsa -- nem mesmo hoje!!). Gostei da descrição da cumplicidade entre os fumantes e me identifiquei completamente, mesmo não fumando mais consigo me lembrar da sensação de forma nítida. Hoje ainda vivencio essa situação através do maridão.
Grande abraço e um 2007 com muita inspiração e muitos posts na Blogosfera BCT.

28/12/06 11:47  

Anonymous Artemus disse...

Desculpe pelo teste, amigo, mas tenho tido dificuldades em postar no blogger. Quanto à historinha, caramba, Tabac, não lhe ocorreu nenhuma saída estratégica para salvar a noite? Uma frase genial, uma tirada de humor, uma humilde e conciliatória confissão de culpa? Digamos... Não, não digamos nada. Eu também era péssimo nessas situações. Tenho uma teoria: bom de texto, ruim de papo. Meus amigos costumavam me pedir para escrever os torpedos (é isso, ainda?)que quebravam as geleiras iniciais. Escrevi muitos, para os outros. Não sei que tipo de me escrúpulo me impedia de fazê-lo em proveito próprio. O fato é que, com o passar do tempo, vou conseguindo viver dos tais torpedos - um pouco mais longos, é verdade - mas continuo sofrendo de lapsos mentais diante de um novo rosto feminino. E, para finalizar com uma gíria da época, que menina cri-cri, hein?

30/12/06 07:32  

Anonymous artemus disse...

Post novo no CS, abraçao. E boa virada de ano!

30/12/06 08:32  

Anonymous artemus disse...

Sempre evitei comentar essa história de minha abstinência em relação ao álcool, pois temia que as pessoas dissessem: se você tirou o álcool da sua vida, tirar o cigarro é mole. Pois acredite, rapaz: esperei praticamente dez anos para conseguir encarar o desafio. Parar de fumar é muito mais difícil porque é um vício socialmente aceito. Mata, mas não difama, como se dizia antigamente. Além do mais, não queria me expor, pela razões das quais você é o mais ferrenho defensor, rsrsrs... E tenho um nome público, essas coisas. Nem todo mundo entende isso como uma questão de saúde. Enfim, você matou a charada em dois tempos. Deixemos isso pra lá. Mas sempre me vem a vontade de explorar a diferença entre os graus de dificuldade. Sem dúvida, o tabagismo é um monstro. Um abraço.

3/1/07 19:30  

Anonymous Viviane disse...

Esse texto me remeteu até minha curta, porém, intensa adolescência. Mesmo não sendo fumante na época, nunca me incomodei com os cigarros dos meus namorados. Aliás, apenas 01 dos 04 namorados que tive na vida, não fumava. Concluo, portanto, que a maturidade, sem dúvida nos deixa mais exigentes, pois atualmente não suporto fumaça de cigarro. Beijão! P.S. Minha filha acha muita graça, quando comento casos da minha época, e digo discoteca. (...) eu adorava discoteca. rsrsrs.

10/1/07 14:53  

Postar um comentário

Link para este post:

Criar um link

<< Voltar