Inferno obrigatório
Artemus disse...
Catarina é inverossímil como um personagem mal formatado. Fumar 60 cigarros por dia aos 13 anos? E a logística de esconder tudo dos pais, especialmente os odores residuais? E a verba para queimar 200 reais ao mês, de onde vem? Agora, menos verossímil ainda é a estratégia de meu velho amigo Tabac. Redução gradual sem cronograma, sem prazos finais, sem a expectativa e a angústia dos momentos decisivos? É, meu amigo, você é um existencialista sartreano daqueles mais irritantes (no bom sentido, é claro). Daí, como Sartre, você pode me responder: "O inferno são os outros", hahahaha...
Estou adorando a fase 'franqueza-acima-de-tudo-doa-a-quem-doer' do nosso velho amigo Artemus. Porque, de politicamente correto, já basta o mundo hipócrita em que freqüentemente submergimos. E nada como um pouco de autenticidade para tirar o pó das idéias.
O primeiro alvo da franqueza foi nossa amiga Viviane, em fase de escorregadelas na abstinência de um ano, que por isso aceitou severos puxões de orelha deste que se tornou o superego do BCT, uma espécie de velho sábio da tribo, ao qual todos recorrem quando desorientados.
Artemus então apontou seu cajado na direção de Catarina e eu, para denunciar nossa carência de verossimilhança. Caro Artemus, por mais que nos esforcemos em nos descrever sincera e completamente, você bem sabe que essas personas virtuais que criamos são todas personagens. Não quero dizer que estamos sendo deliberadamente mentirosos ou omissos, mas que é impossível nos descrevermos de uma forma objetiva, plena e cem porcento isenta. Isso inclui a Catarina e eu, claro. Mas você também!
Retóricas à parte, acredito que para um personagem como a Catarina ficar bem formatado, basta imaginarmos pais muito ricos e ocupados, predispostos a não ver certos problemas para não ter de resolvê-los, e tentando compensar sua ausência com dinheiro. Situação que, infelizmente, não é rara de se ver por aí.
Mas vamos logo ao personagem que mais me interessa - eu mesmo, quem mais seria? Talvez Artemus esteja compreensivelmente influenciado pela experiência da companheira Cristal, que vive o seu "inferno pessoal" (ou vivia, na época em que o comentário acima foi deixado; a velocidade de atualização desse blog é para nocautear qualquer persona virtual que se preze...). Referências e esse "inferno pessoal" já apareceram antes no Cigarro e Silêncio e/ou em comentários deixados por Artemus em outros blogs. A maioria parece concordar que a expressão descreve bem a provação pela qual passam os candidatos a ex-fumante no início da abstinência de nicotina.
Mas o que mais intrigou no comentário é que, para Artemus, esse inferno pessoal é obrigatório! Sem o inferno, sem a "angústia dos momentos decisivos", qualquer estratégia é inverossímil na opinião do nosso amigo.
Tenho certeza de que já comentei essa questão aqui antes. Compreendo, cada vez mais, principalmente após a ajuda dos colegas do BCT, que há uma diferença significativa entre a minha relação com o tabaco e a da maioria dos fumantes, que é o grau de dependência física. Existe um teste que avalia o quanto o nosso corpo está viciado, e nesse teste - por incrível que possa parecer, uma vez que eu continuo fumando enquanto outros com grau mais alto pararam - meu resultado é um grau baixo de dependência física. E ainda que alguém quisesse discutir a validade do teste, acho que o meu grau baixo pode ser confirmado pela ausência desses sintomas freqüentemente narrados pelos que estão em seus "infernos pessoais".
O meu lance com o cigarro é uma coisa psicológica, mental, comportamental. Não sei se isso é melhor ou pior. Às vezes acredito que, se eu tivesse experimentado e superado algo semelhante a esse inferno pessoal que tantos descrevem, seria mais fácil nunca mais colocar um cigarro na boca. Mas as coisas comigo não funcionam assim, feliz ou infelizmente.
O fato é que eu já estou há 3 meses nesse esquema, fumando em média uns 10 cigarros por semana, sem que essa quantidade tenha aumentado ao longo do tempo. Não sei o que vai acontecer daqui para frente, é claro que o ideal é diminuir essa quantidade até zero, e permanecer no zero. Espero chegar um dia a este ideal; acredito, cada vez mais, que este estágio só virá junto com um equilíbrio pessoal construído gradualmente e a duras penas.
Não que eu não tenha passagem comprada para o meu inferno pessoal. Mas o avião não será a abstinência de tabaco. A questão da patologia do meu tornozelo, a expectatitva de uma cirurgia difícil e uma convalescença longa e, sobretudo, a perspectiva de ficar com limitações para o resto da vida têm proporcionado doses razoáveis de ansiedade (sem que isso tenha aumentado a média de cigarros fumados), mas isso é assunto para outro post, senão para outro blog.
Tabac - 22:40
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